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domingo, 27 de outubro de 2013

A brecha que o sistema queria


Na última sexta-feira 25, um militante da fanfarra do M.A.L. tocava com a cara marcada de agressões e um trompete torto. Era o resultado da ação de um grupo de policiais que o haviam cercado, o imobilizado, o jogado no chão e pisoteado sua cara na quarta-feira 23, em protesto no distante bairro do Grajaú.

Naquele mesmo dia, abusos ocorreram quando os manifestantes foram obrigados a entrar na avenida Presidente Kennedy, prensados entre mansões e a represa, sem ter para onde fugir. Lá, ao menos vinte e três militantes foram detidos para averiguação, em claro desrespeito à constituição. Entre outros abusos, um advogado que tentava liberar presos chegou a ser estrangulado por policiais. Ninguém ganhou capas de jornais.
Nesta sexta, o tenente coronel agredido por black blocs, salvo por um P2 (policial à paisana), foi a grande notícia do último protesto da semana de luta pelo transporte público. Ao olhar as notícias e opiniões publicadas, parece que nada mais aconteceu naquele ato.


Na lógica da grande mídia, a agressão de um policial vale mais do que dezenas de prisões arbitrárias e agressões contra manifestantes.

Ignorou-se que a mesma policia assistiu de braços cruzados à maior parte da depredação do terminal parque Dom Pedro II. Os 800 policias que acompanhavam o ato esperaram o fim dele para agir com contundência. Instantes depois de um jogral na praça da Sé, os militantes cantavam em clima de festa "violência é a tarifa, fascista é a policia". Foi quando ocorreu uma chuva de gás lacrimogêneo, vinda de todos os lados da praça. Milhares de pessoas tentavam correr dela, sob disparos de balas de borracha, muitas delas sozinhas.
A depredação na região se intensificou, e o medo era a regra pelas estreitas ruas do centro. A partir dali, ocorreu uma série de “detenções para averiguação”. Dos 92 presos, dois foram responsabilizados pela agressão ao policial. Vi pessoas sendo levadas ao hospital, com a perna sangrando após serem atingidas por policiais. Atrás da praça da Sé, manifestantes vomitavam em cima do meio fio graças aos efeitos do gás.

O processo do dia seguinte a este ato lembra o do dia 11 de junho, uma terça-feira, quando os jornais estamparam um policial sangrando, cercado por manifestantes, em uma imagem fora de contexto. Esqueceram dos detidos que passaram os próximos cinco dias sofrendo abusos em presídios simplesmente por estar protestando.

No dia seguinte, o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo ofereceu ajuda ao governo estadual com o que fosse necessário. Dois dias depois, o que se viu foi um estado de exceção sem precedentes no centro da cidade. Desta vez, é a própria presidenta Dilma Rousseff que oferece: “o Governo Federal coloca à disposição do Governo de São Paulo o que ele julgar necessário.”

A agressão ao policial lembra o momento em que, na narrativa de Mano Brown em “Diário de um Detento”, presidiários brigam em uma cela. Depois, são usados como desculpa para a invasão do presídio, e o esquecimento dos direito humanos no massacre do Carandiru. Nas palavras de Brown, foi “a brecha que o sistema queria”.


Não se trata aqui de defender a atitude de alguns dos adeptos do black bloc que espancaram o policial. A violência física não é adequada para tratar quem ali exerce a sua profissão, seja ela qual for. A maioria dos policiais não escolheram seu ofício por sadismo, mas pela simples necessidade de salário. Para conter os abusos dessa instituição, acho que vale mais a pena combater a sua própria existência. Além disso, o próprio histórico da tática black bloc não é de agressão às pessoas, mas da destruição de símbolos do capitalismo, entre outras ações. Também é preciso ponderar até que ponto esse tipo de ação direta difusa pode resultar em alguma conquista efetiva.

Mas, independente da discussão sobre a validade da tática dos blocs, a violência cometida pelos policiais, e pelo Estado, é desproporcional àquela cometida pelos ditos vândalos. Ao igualar a violência do opressor com a do oprimido, a opinião publicada mais uma vez dá o aval para a Polícia cometer seus excessos.

Fonte
Carta Capital

domingo, 29 de setembro de 2013

Policiais impedem exibição de filme sobre garoto morto pela PM

Policiais impediram a exibição, em uma favela de Salvador, de um documentário sobre a morte de um garoto de dez anos numa operação da PM no local. O veto acontece em meio aos protestos contra o desaparecimento de Amarildo, o ajudante de pedreiro que sumiu após uma abordagem de PMs no Rio e se tornou símbolo em manifestações pelo país. A sessão aconteceria no Nordeste de Amaralina, favela que é cenário do filme "Menino Joel" e onde vivia o menino, no último sábado (3 ), durante o projeto social Cine Malóca.


Por volta das 19h, policiais da Base Comunitária da região, espécie de UPP local, aproximaram-se do retroprojetor e perguntaram o que iria passar numa das paredes do chamado Largo do Areial. "Quando descobriram, falaram que não poderia. 'Ah, a gente está aqui e isso seria uma afronta para a gente'. Os meninos do Malóca ainda tentaram negociar, mas os PMs disseram que incentivaria a comunidade a ficar contra eles", afirma uma dona de casa, 36, que pediu para não ser identificada com medo de represálias. Ela era uma das mais de 50 pessoas presentes no momento da confusão.

Após o caso, um coronel da PM, que tem boa relação com os moradores, chamou a atenção dos agentes para não mais interferirem no assunto.
A Polícia Militar da Bahia informou, por meio de sua assessoria, que vai apurar "os motivos pelos quais teria sido impedida a exibição do documentário". A corporação ainda disse que "garante a liberdade de expressão", ao tempo em que é "mantenedora da ordem, da lei e do estado democrático de direito".

A morte de Joel da Conceição Castro, na madrugada do dia 22 de novembro de 2010, chocou ainda mais porque o garoto havia estrelado, pouco antes, uma campanha publicitária do governo do Estado na gestão Jaques Wagner (PT).
Em meio à comoção do caso, nove integrantes da 40ª Companhia Independente da PM baiana foram afastados de suas funções na rua. Quase três anos depois, porém, o processo ainda está na fase das audiências de instrução. Ninguém foi punido.
Joel era filho do mestre de capoeira Mestre Ninha. No último dia 13 de junho, um primo de Joel foi morto durante uma abordagem de policiais da mesma companhia. Carlos Alberto Júnior, 21, deixou mulher e filha. Ele não tinha registros criminais.

Mãe dos dois organizadores do Cine Malóca, a assistente social Tania Palma, 45, também é ouvidora da Defensoria Pública no Nordeste de Amaralina e reclama de um "extermínio da juventude negra".
"Você está vendo aí o caso de Amarildo, na Rocinha. A gente quer apenas que as autoridades deem respostas e os culpados sejam duramente punidos, como qualquer um de nós é", afirma.
Dirigido pelo italiano Max Gaggino e produzido pelo baiano Rodrigo Cavalcanti, o documentário "Menino Joel" foi produzido em nove meses e hoje pode ser assistido no YouTube.

Fonte
Folha de SP